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» Concedido em Santarém a 9 de Março de 1308
 
Póvoa de Varzim é o nome da nossa cidade. Explicá-lo representa uma aliciante viagem às suas origens históricas ou mesmo pré-históricas pelo que sou tentado, ao iniciá-la, a recorrer à fórmula genesíaca: no princípio... era a terra de Varazim, ignoto Senhor que a possuiu em tempo não menos ignoto mas, com certeza, posterior à romanização e lhe deu o nome. Alguns achados arqueológicos, muito expressivos em Martim Vaz (hoje, zona desportiva) e menos na Junqueira e Vila Velha, informam-nos da presença e da acção do homem na antiguidade. Porém, o documento identificador do nosso território - Villa Euracini - tem a data de 953 e pertence ao cartulário da Colegiada de Guimarães, designado por Livro de Mumadona.
 
A terra e, sobretudo, o mar que a beija sussurrante e, depois, se deixa amimar em profundo amplexo, despertaram na Idade Média o interesse económico de fidalgos, cavaleiros e eclesiásticos, ávidos de rendas, entre os quais se destaca a estirpe de D. Lourenço Fernandes da Cunha, sem dúvida os mais produtivos colonizadores do nosso território. Os seus casais situavam-se na parte norte, numa área denominada, já no séc. XIV, por Vila Velha. Alguns desses casais pertenceram à Ordem Militar do Hospital e usufruíam o privilégio de "Honra", andando a terra registada com o nome de Varazim dos Cavaleiros e, mais tarde, Varazim de Susão. Outra parte de Varazim, mais para sul, era terra reguenga e os casais pagavam para o Rei tanto dos frutos da terra como do mar, pois havia no seu porto um interessante movimento de pesca. Foi, precisamente, a cobrança do imposto do pescado, dito navão ou nabão, disputado pelos mordomos régios e senhorios de Varazim de Susão, que originou a intervenção do rei a fim de acabar com a instabilidade no território, recuperar a renda da pesca e arrotear as terras de reguengo. Assim, em 1308, depois de arrolados os 54 casais de Varazim, mandou El-Rei D. Dinis passar carta de Foral doando-lhes o reguengo de Varazim de Susão, com o encargo de aí fundarem uma Póvoa, se associarem em Conselho de Vizinhos com seu juíz eleito e, darem-lhe, anualmente, um foro colectivo de 250 libras e os direitos de aportagem.
 
Eis a origem da nossa terra e do nome que ostenta. A Póvoa de Varzim arranca para o desafio dos tempos voltada para a sua angra marítima que lhe garante a subsistência e havia de ser o primeiro motor do seu desenvolvimento e prosperidade. Desafio dos tempos... disse... para recordar os principais lances do evoluir histórico do nosso burgo. Em 1312, o rei D. Dinis doou a Póvoa de Varzim ao filho bastardo Afonso Sanches de Albuquerque e este, por sua parte, meteu-a no património do mosteiro de Santa Clara (1318) que acabara de fundar em Vila do Conde. O domínio do senhorio eclesiástico através da Abadessa e seus ministros, chegou a ser total e durou o melhor de duzentos anos. Ainda ele decorria quando D. Manuel mandou dar foral novo à Vila (1514), reformando o antigo na parte fiscal e provendo-o de mecanismos alternativos à jurisdição do mosteiro. Suspeita-se que estes foram accionados a partir de 1537, data em que as jurisdições do mosteiro são postas em arrematação e a dependência das justiças locais passaria para o desembargo do Paço e seu Corregedor na comarca do Porto. A pequena Vila da Póvoa, que não contaria mais de quinhentos habitantes, sente o ar benéfico que percorre o litoral do país, envolvido no vultoso tráfico das descobertas e conquistas, e assume a feição de burgo com a sua Casa do Concelho, Praça Pública e Pelourinho, onde os Homens Bons da terra e do mar jamais se aquietarão em projectos destemidos. Um deles consistiu na emancipação religiosa da paróquia de Argivai, criando-se a Vigararia de Santa Maria de Varzim com sede na ermida da Mata, que teve de ser ampliada e preparada para o efeito.
Aí pregou e administrou o crisma, em 1560, o santo Arcebispo Frei Bartolomeu dos Mártires. De resto, o séc. XVI deu à terra aquela estrutura administrativa, social e religiosa que permitiu vencer algumas crises difíceis que o século seguinte lhe reservaria.
Refiro-me, em particular, às onerosas questões territoriais com a Câmara de Barcelos.
É na segunda metade do séc. XVII que se detecta a existência de uma pequena comunidade piscatória dedicada à pesca do alto para o negócio da salga que começa a desenvolver-se e a florescer. No século seguinte, a Póvoa de Varzim vai transformar-se na maior praça de pescado do norte do país. Um autêntico exército de almocreves batia, diariamente, caminhos e veredas fazendo penetrar nas Províncias do interior o saboroso peixe da Póvoa. Os seus pescadores eram conhecidos em toda a costa como os mais laboriosos, expeditos e sabedores dos mares. O destemor com que enfrentavam a sua perigosa barra criou a figura lendária do "poveiro".
Aumentadas as pescas, o tecido urbano ganha uma dimensão nova e criam-se zonas ribeirinhas de domínio, quase absoluto, da pescaria.

O dinheiro entra com abundância no cofre das sisas; o comércio engrossa; a indústria da salga prospera e o bem estar da população reflecte-se no levantamento de três edifícios religiosos: Matriz (1743), Lapa (1772) e Sra. das Dores, esta iniciada em 1776 mas só concluída no século seguinte. Funda-se a Santa Casa da Misericórdia (1756) e o Corregedor Almada obtém para a Póvoa uma provisão régia (1791) que lança os fundamentos de uma nova urbe: praça pública unindo a parte alta, mais antiga, à parte ribeirinha; Casa da Câmara, quadrando o norte da praça; Aqueduto das águas livres com o seu tanque e chafariz na praça e uma "Caldeira" no mar para abrigo dos barcos.

Embelezada a vila e protegido o trabalho, a Póvoa não mais cessa de crescer e muitos a procuram, também, para o benefício dos "banhos do mar": mal se vislumbra, ainda, o sucesso deste facto sócio-económico que iria fazer da Póvoa de Varzim, já na 2ª. metade do séc. XIX, a grande estância balnear frequentada pela melhor fidalguia do aquém Douro. Nos seus belos salões misturam-se graves figuras da política, das artes e das letras com a burguesia fruste criada pela Regeneração e ourados "brasileiros" de torna-viagem.
É a época do café-concerto e da tavolagem secreta que a ligação ferroviária Porto-Póvoa (1875) e a linha americana Vila do Conde - Póvoa (1874) vão animar consideravelmente.
A pesca, os banhos de mar e o jogo constituem, agora, as bases do progresso da Póvoa de Varzim, o eixo da sua evolução económica e o centro de todas as paixões políticas. A actividade piscatória ancora-se, hoje, em seguro porto de abrigo; a praia de banhos equipa-se com modernas e atraentes estruturas; o jogo, regulamentado e oficial, encontra-se no seu monumental casino, interiormente, de uma beleza extasiante e animou de constante e multiforme criação artística.
A cidade da Póvoa de Varzim fixou-se como ponto capital da região turística da Costa Verde."
 
M. Amorim - Investigador da História Local
 
   
 
 
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